Estudo lançado pela ICC Brasil, com apoio técnico da Systemiq e da Emerge, revela como a integração entre ciência, tecnologia e biodiversidade pode gerar até US$ 140 bilhões para o país até 2032.
O Brasil vive um momento decisivo para consolidar uma nova rota de crescimento: a bioeconomia do conhecimento. O conceito, que ganhou protagonismo durante a COP30, representa uma virada de chave para a forma como o país transforma ciência, biodiversidade e tecnologia em valor econômico e soluções sustentáveis.
O estudo “O Potencial do Brasil na Bioeconomia do Conhecimento”, lançado pela ICC Brasil com apoio técnico da Systemiq e da Emerge Brasil, revela números robustos e um cenário promissor: o país pode adicionar entre US$ 100 e 140 bilhões à economia até 2032 em cinco setores estratégicos — alimentos, saúde, materiais, cosméticos e agronegócio.
Mais do que um novo setor produtivo, a bioeconomia do conhecimento é uma nova lógica de desenvolvimento, baseada na valorização dos saberes científicos, tecnológicos e tradicionais. Ela representa o ponto de encontro entre inovação profunda (deep tech), proteção da biodiversidade e competitividade industrial — uma agenda que conecta diretamente o Brasil às tendências mapeadas no Radar Deep Tech 2025 da Emerge.
O que é a bioeconomia do conhecimento?
A bioeconomia do conhecimento é um segmento avançado da bioeconomia tradicional, que enfatiza o papel do conhecimento na geração de valor. O conceito integra ciência, tecnologia e inovação (CT&I) à sabedoria dos povos tradicionais, transformando ativos biológicos e biodiversidade em produtos e serviços de alto valor agregado.
Essa convergência entre o científico e o natural impulsiona o surgimento de novas cadeias produtivas, desde ingredientes bioativos e biomateriais até terapias, cosméticos e alimentos funcionais.
O estudo destaca que essa abordagem não apenas gera valor econômico, mas também aumenta a complexidade produtiva do país — um indicador usado globalmente para medir o nível de sofisticação de uma economia. Ao agregar conhecimento e tecnologia à biodiversidade, o Brasil se posiciona como fornecedor de soluções de fronteira, e não apenas exportador de recursos naturais.
A tríplice revolução: biológica, digital e sustentável
O relatório mostra que a bioeconomia do conhecimento está sendo impulsionada por uma tripla revolução tecnológica:
Biológica, com avanços em biotecnologia, edição genética e biofabricação;
Digital, com o uso de inteligência artificial, automação e sensoriamento avançado para acelerar a descoberta de bioativos e a otimização de processos;
Sustentável, com foco em circularidade, substituição de insumos fósseis e rastreabilidade de cadeias produtivas.
Essa combinação cria um ambiente propício para o surgimento de deep techs brasileiras — startups científicas que desenvolvem soluções baseadas em pesquisa e engenharia de fronteira.
Segundo o Deep Tech Radar 2025, o Brasil já abriga 952 deep techs, sendo 43% delas ligadas à bioeconomia. Os setores de saúde, agro e materiais avançados concentram a maior parte das iniciativas, demonstrando a conexão direta entre o avanço da ciência e o fortalecimento da bioeconomia nacional.
Um potencial estimado em até US$ 140 bilhões
O relatório da ICC Brasil quantifica o impacto econômico da bioeconomia do conhecimento:
Alimentos: US$ 40–50 bilhões até 2032, impulsionados por novos ingredientes naturais, proteínas alternativas e alimentos funcionais.
Materiais: US$ 20–30 bilhões, com destaque para biomateriais circulares e biodegradáveis.
Agronegócio: US$ 18–25 bilhões, liderados por soluções biológicas e regenerativas.
Saúde: US$ 12–20 bilhões, alavancados por biotecnologia, vacinas e terapias inovadoras.
Cosméticos: US$ 8–12 bilhões, com foco em bioativos e produtos sustentáveis.
Esses números refletem o potencial de transformar biodiversidade em vantagem competitiva. Com base científica sólida, infraestrutura industrial diversificada e matriz energética predominantemente limpa, o Brasil reúne todos os elementos para se tornar líder global em bioinovação.
Os desafios para a consolidação da bioeconomia
Apesar do potencial, o estudo identifica três grandes desafios estruturais:
Traduzir conhecimento em inovação: o Brasil ainda conhece pouco de sua biodiversidade — apenas 10% das espécies da flora têm mapeamento genético e menos de 1% dos microrganismos têm potencial biossintético conhecido.
Desbloquear financiamento especializado: a concentração de recursos em setores tradicionais e a ausência de capital paciente dificultam o crescimento de cadeias emergentes.
Fortalecer a infraestrutura de inovação: o país ainda carece de redes industriais e regulatórias que acelerem a validação e a escalabilidade de novas tecnologias.
Superar esses obstáculos exigirá uma nova governança da inovação, baseada no modelo de “hélice sêxtupla”, que une governo, indústria, academia, investidores, sociedade civil e natureza — reconhecendo esta última como um ator essencial no processo de desenvolvimento.
Por que o Brasil é o país com maior vantagem comparativa
O Brasil concentra 24% da biodiversidade global e possui centros científicos de excelência, como Embrapa, Fiocruz e Instituto Butantan. Soma-se a isso uma base industrial consolidada, políticas públicas emergentes — como a Estratégia Nacional de Bioeconomia (Decreto nº 12.044/2024) — e uma matriz energética 46% renovável.
Além disso, programas como Nova Indústria Brasil e Fundo Vale para a Restauração e Bioeconomia já direcionam bilhões de dólares em investimentos para projetos de descarbonização e bioinovação.
O ecossistema de deep techs brasileiras, mapeado pela Emerge no Deep Tech Radar 2025, também confirma essa vocação: mais de 36% das startups científicas atuam em saúde e 27% em agroalimentar, refletindo a força dos setores que formam a base da bioeconomia do conhecimento.
Um chamado para ação
A bioeconomia do conhecimento representa a próxima fronteira econômica do Brasil — uma oportunidade de alinhar crescimento, sustentabilidade e inovação científica.
Para atingir seu potencial, será necessário investir cerca de US$ 15,7 bilhões na próxima década em instrumentos de crédito, subvenção e capital de risco. Mas, acima de tudo, será preciso consolidar uma cultura que valorize o conhecimento como o principal ativo de desenvolvimento do país.
O lançamento do estudo durante a COP30 marca um divisor de águas nessa agenda. Com a união entre ICC Brasil, Systemiq, Emerge e parceiros estratégicos como Fundo Vale, Itaú Unibanco, Natura e Nestlé, o país dá um passo decisivo para construir um modelo econômico baseado em biodiversidade, ciência e tecnologia — colocando o Brasil no centro da transição verde global.