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Ciência e inovação – não necessariamente nessa ordem

Não há dúvida sobre a importância da ciência, tecnologia e inovação para o desenvolvimento da sociedade. Carl Sagan, físico e famoso divulgador científico, em sua obra O mundo assombrado pelos demônios – a ciência vista como uma vela no escuro nos alerta para o seguinte:

Nós criamos uma civilização global em que os elementos mais cruciais – o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a proteção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto – dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criamos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia.

Compreender o processo e a relação entre ciência, tecnologia e inovação é essencial para poder alavancar essas importantes ferramentas que dependemos.

Diferentemente da narrativa comum em que a tecnologia deriva da ciência, na verdade, foi a ciência que derivava cada vez mais da tecnologia, na medida em que os físicos do século XVIII estavam mais empenhados em tentar explicar o funcionamento das máquinas do que tentando melhorá-las. E quando o faziam, percebiam que a engenharia da época já tinha alcançado um modelo ótimo, sendo o caso das garrafas de vinho e das máquinas a vapor. O estudo dessas tecnologias ampliou o conhecimento sobre o cálculo variacional e a termodinâmica[1], apesar de não terem este fim em um primeiro momento.

Foi somente a partir da Segunda Revolução Industrial que isso mudou. Em determinadas áreas, foi a ciência que contribuiu demasiadamente com a tecnologia, sendo ainda mais acelerada no século XX. Muitos avanços da ciência básica só foram possíveis graças ao progresso tecnológico, tendo os rumos da ciência sido influenciados pela tecnologia.

A busca pelo conhecimento, movida pela curiosidade e pelas descobertas, começou a se separar da tecnologia por diversos fatores. Um deles era a posição social e econômica ocupada pelos então filósofos naturais, hoje cientistas, e os melhoradores de tecnologia que se dedicavam às atividades práticas. A ciência isolada da prática era vista como mais pura e elitizada, enquanto a técnica e colocar em prática melhorando a tecnologia não era bem vista pela elite.

Mas isso começou a mudar quando cientistas relevantes passaram a endereçar suas pesquisas com um olhar tanto no avanço do conhecimento quanto nas possíveis aplicações práticas. Nesse contexto, com o aumento da influência da ciência no desenvolvimento tecnológico, bem como a consciência de que a inovação tecnológica exigiria a aplicação de métodos científicos para a melhoria dos processos industriais cada vez mais complexos, levou  aos governos a criação de escolas técnicas, sendo a primeira a École Polytechnique na França

Apesar das universidades americanas também beberem do modelo de união entre a ciência e a técnica, a narrativa e leitura que imperou no século XX foi estabelecida a partir do relatório para a política científica americana Science the Endless Frontier, em 1945, em alguma medida para justificar o investimento em ciência básica no período pós-guerra. Neste, a narrativa já superada do modelo linear de inovação, no qual deve ocorrer desenvolvimento de ciência básica com o fim exclusivo em avançar no conhecimento sem o objetivo prático e, aumentando o estoque de conhecimento, será possível desenvolver inovações tecnológicas posteriormente, prevaleceu nas políticas públicas e até hoje permanece no imaginário popular e também em parcela da comunidade científica.

O modelo linear, assim interpretado em Science the Endless Frontier, já está superado tendo em vista que se sabe que, para o desenvolvimento econômico baseado em conhecimento, não basta o investimento em ciência básica, pensando que algum dia o setor produtivo irá aproveitar disso economicamente desenvolvendo novas tecnologias. O processo é mais complexo do que isso. É necessário, também, proporcionar segurança jurídica, uma combinação de incentivos que vai da formação de profissionais altamente qualificados a incentivos fiscais, subvenções, investimento direto, compras públicas, encomendas tecnológicas, bem como uma cultura inovadora e que o setor privado também assuma o seu papel empreendedor e tome riscos relevantes para permanecerem ou crescerem sua participação no mercado. 

Hoje, temos convicção que necessitamos da ciência, método, rigor, revisões e conhecimento para explicar os desafios globais que enfrentamos; precisamos de tecnologia, de ferramentas que instrumentalizam o conhecimento, para alcançar a finalidade pretendida; precisamos de inovação, na medida em que é necessário alcançar a sociedade ampla e democraticamente, promovendo desenvolvimento socioeconômico, resolvendo seus desafios. Não necessariamente nessa ordem. 

Daniel Pimentel é advogado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, mestre em modelagem de sistemas complexos pela Universidade de São Paulo, idealizou e coordenou o primeiro Ranking de Universidades Empreendedoras e atualmente é Diretor de Universidades e Transferência de Tecnologia na Emerge.

[1] Kuhn, the Essential Tension, op. cit., p.44 em O Quadrante de Pasteur – a ciência básica e a inovação tecnológica/Donald E. Stokes; tradutor: José Emílio Maiorino.- Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2005.

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