Afinal, qual é o nosso desafio?

Ingredientes para produzir inovação no Brasil não faltam, mas o prato que é produzido não tem boa aceitação. Quais as causas desse fenômeno?  

O Brasil tem uma sociedade criativa. Estamos na posição 29 entre as 139 nações classificadas no Ranking Global de Criatividade[1]. O Brasil tem uma sociedade empreendedora. Conforme o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), mais de 60% do nosso empreendedorismo é hoje por oportunidade ao invés de por necessidade[2]. E ocupamos a posição 19 entre as nações com maior intenção de empreender, segundo os dados de pesquisa desenvolvida pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT)[3].

O Brasil produz conhecimento científico globalmente importante. Avançamos em diversos campos, da medicina à matemática, da agricultura à computação. Na década de 1980 ocupávamos a 29ª posição em artigos indexados na Web of Science[4]; na década atual subimos para a 14ª posição.

Tendo uma sociedade criativa, empreendedora e produtora de conhecimento científico relevante, o Brasil se tornou uma nação inovadora e competitiva? A resposta é claramente negativa. Apesar da criatividade, empreendedorismo e ciência constituírem elementos relevantes para uma nação ser inovadora e competitiva, estamos no 64º lugar entre os 126 do Índice Global de Inovação[5] e na 72ª posição entre as 140 do Ranking de Competitividade Mundial[6].

Em uma analogia com o cotidiano, parece que o Brasil tem excelentes ingredientes, mas o prato que é produzido não tem boa aceitação. Seria o chef imperito? O tempero inadequado? As proporções erradas? O tempo do cozimento insuficiente ou exagerado?

Como estamos diante de um problema complexo, não existe uma única causa, uma solução única ou um ator que irá solucionar magicamente a questão. Não há “bala de prata”. Modelos para tentar compreender e estimular o desenvolvimento econômico e social guiados pela ciência, tecnologia e inovação remontam à década de 1960. O que há de comum entre eles é o pressuposto de que é insuficiente a existência de alguns agentes robustos, tais como universidades de ponta e empresas premiadas. Conta muito a efetiva articulação, inter-relação e cooperação entre os entes governamentais, o meio empresarial (aí incluído o segmento financeiro), as instituições acadêmicas (aí incluídos os institutos de pesquisa) e a sociedade civil.

Estudo extenso da governança do esforço inovador de nações que integram a OCDE[7] corrobora essa proposição. Por um lado, é essencial aportar recursos públicos e privados para pesquisa fundamental e para pesquisa, desenvolvimento e engenharia voltadas à inovação, em montante e regularidade compatíveis com o nível de prosperidade que uma nação deseja. Por outro lado, o cotejo do desempenho inovador entre nações comparáveis, por exemplo na Escandinávia, evidencia situações em que a que mais despendeu em produção de conhecimento não é a que melhor se sai no quesito inovação. Há uma dinâmica inerente, uma complexidade que precisa ser levada em consideração. É necessário criar uma visão e comunicá-la; estabelecer e consolidar mecanismos de cooperação público-privada; desenvolver estratégia, objetivos e metas; e, sobretudo, implementá-las e monitorá-las. Por fim, é necessário um sistema de governança que estimule o uso do conhecimento para impulsionar o desenvolvimento econômico e social baseado na inovação.

Temos avançado em alguns desses aspectos soft. A mobilização de um grupo de 57 organizações da comunidade científica, empresarial e governamental articulou a criação de um novo Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação[8]. O primeiro resultado, fundamental, foi dar, em 2015, status constitucional à inovação. No período 2016-2018 foram promulgados outros dispositivos que visam a promover maior interação público-privada para a inovação, desburocratizar esse processo e fornecer novos mecanismos à sociedade civil. É, contudo, importante dimensionar as expectativas: muito trabalho precisa ser feito para esse novo marco seja devidamente aceito e praticado, inclusive pela Justiça e pelos assim chamados “órgãos de controle”.

Ainda como avanço de destaque, grandes empresas brasileiras têm se mobilizado para o investimento em inovação, em alguns casos estimulando ou criando seus próprios ecossistemas de inovação[9]. No campo do empreendedorismo inovador, a novidade é o recente surgimento de sete “unicórnios”[10], startups que atingiram o valor de US$ 1 bilhão no mercado (cabe observar que quatro delas foram criados com a participação fundadora de egressos e egressas de universidades públicas). No campo da infraestrutura cientifico-tecnológica fomos capazes de implantar um acelerador de partículas de terceira geração, que opera como laboratório nacional multiusuário, em que pese as severas restrições orçamentárias do País.

Haveria algo mais a cuidar além da alentada agenda indicada? A resposta é positiva.  Além dos aspectos já apontados, para que a inovação não se torne apenas mais um modismo charmoso, é preciso dar valor a um aspecto sutil, de grande importância. Constatou a OCDE [Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico] no estudo referido que as nações com mais êxito em tornar a inovação um benefício robusto e abrangente para a sociedade são aquelas em que as políticas e esforços de inovação estão fortemente atrelados aos desafios nacionais e regionais.

Essa integração é ainda incipiente no Brasil, quer no âmbito das políticas públicas e mesmo nas práticas empresariais. Assim, nossa recomendação inicial nesta coluna que a bem-vinda MIT Sloan Management Review Brasil generosamente nos abre é aprofundar a reflexão propositiva acerca de uma forma nova de lidar com o nosso desafio: avançar de políticas para inovação para políticas pela inovação. Esse não é um desafio trivial, pois exige mudanças de mentalidade e de governança.

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