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De ferramenta à ruptura: a inteligência artificial como motor das deep techs

Imagem de um microchip com a sigla “AI” no centro de uma placa-mãe, representando o avanço da inteligência artificial em deep techs.

Nos últimos anos, a inteligência artificial (IA) voltou ao centro das atenções. O avanço dos modelos generativos como o GPT e o uso crescente de chatbots, sintetizadores de imagem e assistentes inteligentes trouxe a IA para o cotidiano de consumidores e empresas. Mas, em meio ao entusiasmo, um aspecto importante passa despercebido: nem toda inovação com IA é de fato transformadora.

Há uma diferença fundamental entre usar IA como ferramenta e desenvolver novos paradigmas de IA que redesenham tecnologias e setores inteiros. É aí que entra o conceito de deep tech e porque vale a pena olhar com mais atenção para essa fronteira.

O que são deep techs e por que importam

Deep techs não são apenas “startups com tecnologia”. Deep techs são tecnologias baseadas em ciência e engenharia de fronteira. Elas envolvem longos ciclos de maturação, riscos técnicos relevantes e, em geral, demandam pesquisa aplicada profunda. Biotecnologia, novos materiais, computação avançada e energia alternativa são exemplos clássicos. Nesse contexto, a IA pode ser tanto um componente de aplicação — como em um chatbot para atendimento — quanto o motor de uma ruptura científica. A diferença está no nível de complexidade tecnológica, originalidade do conhecimento gerado e impacto potencial.

IA de aplicação vs IA de fronteira: qual delas promove disrupção?

Chamamos de IA de aplicação os usos mais comuns e já consolidados da inteligência artificial: sistemas de recomendação, diagnósticos baseados em modelos prontos, automação de processos. Essas soluções geram ganhos reais de eficiência, mas geralmente operam com ferramentas já disponíveis no mercado. Por outro lado, a IA de fronteira é aquela que expande os próprios limites da tecnologia. Ela envolve o desenvolvimento de novos algoritmos, infraestruturas computacionais próprias (como TPUs ou clusters especializados), e abordagens inéditas de aprendizado, como o self-supervised learning ou IA neuroinspirada. Mais do que processar dados, essas tecnologias geram novas áreas de conhecimento.

Exemplos emblemáticos de IA de fronteira

Exemplos marcantes incluem: o AlphaFold, da DeepMind, que previu estruturas de proteínas com precisão inédita; o GNoME, do Google DeepMind, que descobriu milhões de materiais com potencial tecnológico; e modelos multimodais como o Gemini, capazes de integrar diferentes tipos de dados (texto, imagem, código) em uma mesma arquitetura.

A IA como aceleradora de deep techs

Uma das transformações mais relevantes em curso é o uso da IA para acelerar a pesquisa e o desenvolvimento em áreas de base científica. O que antes levava anos de experimentação pode, hoje, ser reduzido a semanas ou dias com o suporte de modelos preditivos, simulações e análise algorítmica.

Na biotecnologia, por exemplo, a IA está sendo usada para sugerir e otimizar sequências de proteínas com atividade terapêutica. Em novos materiais, ela auxilia na identificação de composições com propriedades específicas, cruzando grandes volumes de dados físicos e químicos. No setor aeroespacial, modelos ajudam a rastrear e prever órbitas de detritos, reduzindo riscos de colisão. Até na computação quântica, algoritmos são usados para corrigir erros e desenhar circuitos mais eficientes.

O que essas aplicações têm em comum é que não seriam viáveis sem o suporte da IA. Ela atua como motor de avanço em áreas tradicionalmente intensivas em capital, tempo e incerteza científica.

O Brasil precisa participar dessa transformação

Apesar de termos centros de pesquisa de excelência e uma biodiversidade única no mundo, o Brasil ainda investe pouco em iniciativas que combinam IA com ciência de base. A maior parte do capital de risco alocado em IA no país se concentra em aplicações imediatas, voltadas à eficiência operacional ou experiência do consumidor.

Essa lacuna é uma oportunidade estratégica. O desenvolvimento de tecnologias de base movidas por IA exige outro tipo de visão — de longo prazo, com foco em propriedade intelectual, formação de talentos e articulação entre universidades, empresas e governo. É também uma forma de o país se posicionar em cadeias globais de valor de alta densidade tecnológica.

Conclusão: IA como alavanca para a nova geração de deep techs

A inteligência artificial não é um fim em si. Ela é um meio para resolver problemas complexos e acelerar o avanço do conhecimento. Quando usada para isso, torna-se uma alavanca poderosa para o surgimento de novas deep techs — startups e tecnologias capazes de redesenhar setores inteiros, não apenas otimizá-los. Executivos e investidores atentos a essa distinção terão melhores condições de identificar onde estão os verdadeiros vetores de transformação. A próxima onda de inovação não será apenas digital. Ela será científica, tecnológica e, em grande parte, movida por IA.

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