O ciclo de descoberta-invenção: indo além da dicotomia entre ciência básica e aplicada

Como quase tudo na vida, a ciência e a inovação não seguem caminhos lineares. O ciclo de descoberta-invenção explica como novas descobertas e invenções interagem durante a história. Podendo em alguns casos a descoberta criar as condições para o surgimento de uma invenção e em outros uma invenção permitir a geração de um novo conhecimento. 

A ideia de separar a ciência entre básica e aplicada se desenvolveu a partir do texto “Science: The Endless Frontier” (1945) de Vannevar Bush, resultando no “modelo linear de inovação”. Esse modelo considera que inovações surgem a partir da pesquisa básica, seguindo para pesquisa aplicada. Donald Stokes propôs em 1996 um modelo alternativo que chamou de “O Quadrante de Pasteur”, uma vez que o Louis Pasteur representava a interseção entre ciência básica e aplicada. Entretanto, Narayanamurti et al. (2013) questionam os modelos e propõem um modelo mais amplo do desenvolvimento científico, chamado de “Ciclo de descoberta-invenção”. 

Descobertas: surgimento de novos conhecimentos e fatos sobre o mundo.

Invenções: acúmulo e criação de conhecimentos que resultem em novas ferramentas. 

Como justificativa ao modelo, utilizam uma série de pesquisas vencedoras do prêmio Nobel de Física, por exemplo. Esses prêmios foram concedidos desde a década de 50 até os anos 2000, todos relacionados à tecnologia da informação (Figura 1). Começando com a descoberta do transistor effect (efeito transistor) e invenção dos transistores bipolares, passando por descobertas em eletrônica quântica e invenção do maser e laser, a descoberta do efeito Hall, até a invenção da fibra óptica. 

O interessante é observar nesses exemplos que algumas descobertas e invenções ocorreram ao mesmo tempo ou em momentos distintos. As descobertas podem criar condições para o surgimento de uma invenção e essa pode criar as condições para uma descoberta, sendo assim, o ciclo de descoberta-invenção pode seguir ambas as direções.

Fica evidente a necessidade de uma visão ampla e integrada do processo de desenvolvimento científico, indo além da separação entre ciência básica ou aplicada. Eles também indicam a importância de projetos de longa duração, integração entre membros de diferentes áreas e premiações para ideias futuristas. Pensar no desenvolvimento científico de forma integrada onde as descobertas e invenções podem acontecer independente do momento, é fundamental para compreensão dos novos desafios científicos e tecnológicos, além dos futuros problemas que a sociedade terá que enfrentar, como as mudanças climáticas.

E qual é o ciclo de descoberta-invenção para a tecnologia que você está desenvolvendo a partir da ciência?

 

Luciano Queiroz é Gestor das áreas de formação de cientistas e relacionamento com universidades da Emerge, Doutor em Microbiologia pela Universidade de São Paulo e biólogo formado pela Universidade Federal de Goiás. 

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